Abril 2001 | Um Deus de Milagres

    Um Deus de Milagres

    Abril 2001 Conferência Geral

    “Creio que todos nós podemos prestar testemunho desses pequenos milagres.”

    Tal como Morôni do Livro de Mórmon, creio em um Deus de milagres. Morôni escreveu para as pessoas de nossa dispensação: “Mas eis que eu vos mostrarei um Deus de milagres, ( … ) e é o mesmo Deus que criou os céus e a Terra e todas as coisas que neles há”. (Mórm. 9:11) Morôni proclamou que Jesus Cristo fez muitos milagres extraordinários, que muitos milagres extraordinários foram realizados pelas mãos dos Apóstolos e que Deus, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre, tem de ser um Deus de milagres hoje. (Ver Mórm. 9:18; 9:9)

    Pensem nos milagres do Velho Testamento. Lembrem-se de Moisés e de como ele dividiu o Mar Vermelho. Para todas as futuras gerações dos israelitas, os grandes milagres que proporcionaram a libertação do cativeiro no Egito são provas inegáveis da existência de Deus e de Seu amor por eles.

    Muitos profetas do Livro de Mórmon, inclusive Néfi, fizeram alusão à história de Moisés para incentivar a fé e a crença em um Deus que podia salvar Seu povo em meio a suas aflições. (Ver 1 Né. 4:1–3) Outros profetas lembraram ao povo que eles próprios tinham testemunhado milagres capazes de convencê-los do poder de Deus.

    No Novo Testamento, o Apóstolo João explicou por que havia registrado muitos dos milagres do Salvador: “( … ) para que creiais que Jesus é o Cristo”. (João 20:31)

    Nesta dispensação presenciamos o grande milagre da Restauração do evangelho de Jesus Cristo na Terra. Ela teve início quando um menino entrou num bosque, próximo de Palmyra, Nova York, e abriu seu coração e falou de suas dúvidas a um Deus que ele acreditava poder responder-lhe, ou seja, um Deus de milagres. E os milagres continuaram a acontecer nesta dispensação — milagres extraordinários — inclusive o surgimento do Livro de Mórmon, que é outro testamento de Jesus Cristo.

    Tão importantes quanto esses “milagres extraordinários” são os pequenos “milagres particulares” que ensinam cada um de nós a ter fé no Senhor. Tais milagres acontecem quando reconhecemos os sussurros do Espírito e damos ouvidos a eles em nossa vida diária.

    Tive um professor que incentivava os alunos a manterem um diário dos sussurros e da inspiração do Espírito em sua vida. Orientava-nos a anotarmos o que sentíamos e quais tinham sido os resultados. Algumas pequenas coisas tornaram-se bem evidentes. Certo dia, eu estava tentando freneticamente concluir algumas tarefas e preparar-me para uma viagem. Tinha acabado de descer até a lavanderia do dormitório para tirar a roupa da máquina de lavar e colocá-la na secadora. Infelizmente, todas as secadoras estavam ocupadas, faltando muitos minutos para terminar. Subi as escadas, desanimada, sabendo que quando as secadoras tivessem terminado, já estaria na hora de eu sair. Mal tinha chegado a meu quarto quando me senti impelida a descer as escadas e verificar a lavanderia novamente. Tolice, pensei. Eu acabara de sair de lá. Mas como estava procurando ouvir, apesar de estar com pressa, voltei. Duas das secadoras estavam vazias, e pude terminar todas as tarefas. Estaria o Senhor preocupado em facilitar as coisas para mim em algo tão pequeno, mas que para mim era muito importante? Aprendi, então, por meio de muitas experiências semelhantes que o Senhor nos ajuda em todos aspectos de nossa vida, se estivermos procurando servi-Lo e fazer Sua vontade.

    Creio que todos nós podemos prestar testemunho desses pequenos milagres. Conheço crianças que oram pedindo ajuda para encontrar uma coisa perdida, e encontram-na. Conheço jovens que se armam de coragem para serem testemunhas de Deus e sentem Sua mão e Seu auxílio. Conheço amigos que pagam o dízimo, usando todo o dinheiro que têm, e depois conseguem pagar suas mensalidades ou aluguel, ou comprar comida para toda a família. Podemos contar experiências de orações que foram atendidas e de bênçãos do sacerdócio que proporcionaram coragem, consolo e saúde. Esses milagres diários fazem-nos conhecer a mão do Senhor em nossa vida.

    Pensei muito nesse assunto por causa de uma experiência que nossa família vem passando nos últimos meses. Nossa filha e o marido, embora desejassem do fundo do coração ter filhos, não conseguiram realizar esse sonho por anos. Oraram e procuraram bênçãos do sacerdócio e auxílio médico, até que, por fim, ficaram sabendo que estavam esperando gêmeos.

    No entanto, as coisas não transcorreram tranqüilamente, e três meses e meio antes da época certa de os bebês nascerem, a futura mãe viu-se na sala de trabalho de parto do hospital. Os médicos, a princípio, tinham esperança de pararem o trabalho de parto por mais algumas semanas. Em pouco tempo, porém, a dúvida passou a ser se teriam sequer as 48 horas necessárias para que o medicamento que prepararia os pulmões imaturos dos bebês para funcionar fizesse efeito.

    Uma enfermeira veio da unidade de terapia intensiva de recém-nascidos, para mostrar ao casal todas as máquinas a que os bebês ficariam ligados, caso nascessem com vida. Explicou os riscos de lesão nos olhos, de colapso dos pulmões, de deficiência física e de lesão cerebral. O casal ouviu tudo com humildade, mas esperançoso. Então, apesar de todas as providências tomadas pelos médicos, ficou evidente que os bebês já estavam nascendo.

    Eles nasceram com vida. Uma menina nasceu primeiro e depois um menino, pesando juntos menos de dois quilos. Foram levados às pressas para a unidade de terapia intensiva e colocados em respiradores, com tubos umbilicais, medicação intravenosa e cuidados constantes. Não podiam receber muita luz, não podiam ouvir muito barulho, seu equilíbrio químico precisava ser constantemente monitorado, enquanto o hospital, com equipamentos de milhões de dólares e muitos médicos e enfermeiras maravilhosos, tentavam recriar o milagre do interior de um útero materno.

    Um número imenso de pequenos milagres ocorre a cada dia: um pulmão comprometido é curado e, apesar das probabilidades em contrário, continua a funcionar adequadamente; uma pneumonia é vencida; outras infecções letais surgem e são vencidas; os tubos de medicação intravenosa apresentam defeito e são substituídos. Depois de dois meses e meio, o menino ganhou 900 gramas e pôde respirar com auxílio de oxigênio. Foi tirado do respirador, aprendeu a comer, e seus pais agradecidos levam-no para casa, com monitores ligados a seu corpinho.

    A menina não parava de puxar o tubo de seu respirador, disparando os alarmes em todo o berçário. Achamos que talvez quisesse acompanhar o irmão, mas sua garganta continuava a fechar toda vez e ela simplesmente não conseguia respirar sozinha. A garganta estava tão inflamada que, às vezes, os terapeutas especializados em respiração tinham grande dificuldade em reinserir o tubo, e ela quase morreu. Seu progresso normal ficou prejudicado por sua contínua dependência do respirador artificial.

    Por fim, depois que o irmãozinho já estava em casa há dois meses, os médicos viram-se forçados a sugerir uma cirurgia que lhe permitisse respirar por um orifício na garganta, uma cirurgia que resolveria seus problemas no estômago, fazendo uma abertura em um lado da barriga; mas que afetaria seu corpinho por muitos meses a mais, e talvez pelo resto da vida. Enquanto os pais debatiam-se com essa decisão, uma tia querida enviou uma mensagem a toda a família. Ela explicou a situação — a questão crucial do tempo, a importância do bebê ser retirado do respirador — e sugeriu que uníssemos novamente a nossa fé e orássemos e jejuássemos por mais um milagre, se essa fosse a vontade do Senhor. Terminaríamos nosso jejum com uma oração na noite de 3 de dezembro.

    Deixem-me ler para vocês parte da carta que foi enviada para a família na manhã de 4 de dezembro. “Querida família. Temos notícias maravilhosas! Recebemos bênçãos do Senhor. Agradecemos sinceramente as orações e jejum em favor de nossa menininha. Quando escrevemos esta carta ela já respirava havia 24 horas sem a ajuda de aparelhos. Para nós, foi um milagre. A equipe médica ainda está cautelosa e prefere não fazer previsões, mas estamos muito gratos ao Senhor e a todos vocês. Estamos orando para que esse seja o início do término de sua internação hospitalar. Ousamos até ter esperança de que ela esteja em casa no Natal.”

    Ela foi para casa antes do Natal, e os dois bebês estão passando “muito bem”. Nossa família teve sua própria “passagem pelo Mar Vermelho”, e podemos testificar que existe hoje, tal como houve ontem e haverá para sempre, um “Deus de milagres” que ama Seus filhos e deseja abençoá-los.

    Sabemos, tal como vocês, que nem todos os pedidos feitos ao Senhor e nem todos os jejuns recebem essa mesma resposta tão esperada. Nossa família também já teve de enfrentar a morte de um ente querido, doenças graves, a provação de um divórcio e de filhos que se desencaminharam. Nem sempre compreendemos os motivos desses testes que enfrentamos na mortalidade. Mas nossa fé cresceu, e talvez a de vocês também, ao observarmos nossos entes queridos, amigos ou mesmo pessoas de quem só ouvimos falar perseverarem com fé no Senhor diante de provações muito severas. Eles também conheceram o Deus de milagres e podem testemunhar, em seus momentos de maior provação, que a despeito de tudo o que o futuro lhes reserva, o Senhor os conhece, ama e abençoa. São selados a Ele e um ao outro para sempre e estão dispostos a sujeitar sua vontade à Dele.

    Como foi que chegaram a esse ponto? Como temos acesso ao silencioso milagre que o Senhor realiza ao transformar-nos, Seus filhos, em herdeiros dignos do reino de Deus? Creio que isso se tornou possível porque “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (João 3:16) Creio que isso ocorre quando cedemos aos influxos do Espírito, despojamo-nos do homem natural e sentimo-nos plenos do amor de Deus. (Mosias 3:19) “( … ) Por meio da Expiação de [Jesus] Cristo, toda a humanidade pode ser salva por obediência às leis e ordenanças do Evangelho.” (3ª Regra de Fé) Toda a humanidade, inclusive eu e vocês, podemos participar da Expiação, o maior de todos os milagres de Deus.

    Deus realmente dividiu o Mar Vermelho e deu-nos o Livro de Mórmon. Ele pode livrar-nos de nossos pecados e pode e irá abençoar-nos, Seus filhos, em nossa vida diária. Sei que Ele vive e nos ama e que Ele é hoje um Deus de milagres. Em nome de Jesus Cristo. Amém.